quinta-feira, 3 de maio de 2012


" Open the pod by doors, HAL!"


O filme 2001 Uma Odisseia no Espaço, do cineasta americano Stanley Kubrick, foi lançado em 1968 sob a análise de alguns críticos como a mais elaborada experiência audiovisual da história do cinema.  Baseado no romance homônimo do escritor Arthur C. Clarke, que o escreveu paralelamente às filmagens, a película ultrapassa a mera transposição de formas.  Carregado de metáforas e simbologias, a obra vai além da narrativa filmada, é um prato cheio para estudantes de comunicação, audiovisual e semioticistas.   Na época o crítico da revista Film Comment, F. A. Macklin, definiu assim esta relação entre a literatura e o cinema, “o modo mais gratificante de encarar o livro de Clarke é vê-lo como o primeiro crítico, extremamente útil na compreensão de 2001, mas não seu único intérprete.”
Lançado no ápice da corrida espacial e sob o signo da Guerra Fria, o conflito ideológico pós Segunda Guerra que mesmo sem ter chego aos finalmentes tirou o sono da humanidade, houve quem disparasse críticas ao partidarismo de Kubrick. Mesmo fazendo alusão ao embate URSS/EUA, o diretor estava apenas interessado em criar um filme de ficção científica com enfoque na busca de vida extraterrestre. Foi esta capacidade de transitar entre os diversos gêneros que fez dele um dos maiores gênios da sétima arte.
Em meados de 1964, por sugestão do seu agente, Stanley Kubrick encontra o escritor britânico Arthur C. Clarke já consagrado na área da literatura científica ficcional. O diretor encomenda um roteiro para um filme de “ETs” e o escritor sugere um dos seus contos A Sentinela. Depois de algumas discussões eles resolveram usar a ideia principal do mesmo, além de desenvolver uma narrativa romanceada antes de roteiro cinematográfico.
Clarck se instalou numa suíte do hotel Chelsea em Manhattan com a incumbência de trazer 2001 à luz.   O Chelsea ficou famoso por abrigar figuras da música como Bob Dylan, Janis Joplin, Iggy Pop e escritores da ordem de Charles Bukowiski, William Burroughs e Allen Ginsberg, estes últimos seus colegas de bar.
O primeiro título oficial do filme foi Viagem Além das Estrelas, além de alguns descartados como: Universo, Túnel para as Estrelas, Queda Planetária, o definitivo só viria à tona um ano depois.
As filmagens de 2001 começaram em dezembro de 1965 nos estúdios da MGM, o orçamento total foi de US 10,5 milhões, sendo que US 6,5 foram gastos em efeitos especiais. Em essência, a estrutura narrativa de 2001 é simples, chegando à aristotélica, as obras de referência são a Odisseia (Homero), O Mito do Herói (Joseph Campbell) e a filosofia da evolução de Friedrich Nietzsche. 
Cinematograficamente Kubrick imprime a sua marca na obra, abusa de fades intermináveis, um deles com três minutos de duração, um número astronômico quando falamos de audiovisual. Planos gerais que buscam introduzir o espectador na cena, sequências extensas e uma elipse que faz o filme saltar do período pré-histórico para a era espacial em segundos geniais. Esta entrou para a história como a mais longa do cinema. Do monolito encontrado na Terra, na aurora do homem ao feto dançando no espaço como se fosse um planeta, transcorrem 149 minutos de pura divagação existencial. Tudo isto ao som de Richard Strauss Assim falou Zaratustra, trilha que foi concebida como provisória e se tornou ícone do filme.
Apesar de o diretor fazer da obra um exercício de subjetividade, ele deu a seguinte interpretação ao crítico de cinema Joseph Gelmis, “Começa com um artefato deixado na Terra há 4 milhões de anos por exploradores extraterrestes, que observavam o comportamento dos homens macacos da época e decidiram influenciar o progresso de sua evolução. Tem-se então um segundo artefato enterrado na superfície lunar e programado para sinalizar os primeiros passos do homem pelo universo – uma espécie de alarme cósmico contra bandidos. Finalmente há um terceiro artefato colocado ao redor de Júpiter e esperando pela hora na qual o homem alcança os limites do seu próprio sistema solar. Quando o astronauta sobrevive finalmente alcança Júpiter, esse artefato atira-o a um campo de força ou um portal estelar que o arremessa em uma viagem pelo espaço interior e exterior e finalmente o transporta para outra parte da galáxia , onde ele é colocado em uma espécie de zôo humano similar a um esboço de hospital terrestre, retirado de seu próprio sonho e sua própria imaginação. Num estado fora do tempo, a vida dele passa da meia idade, à senilidade e morte. Ele renasce um ser desenvolvido, uma criança-estrela, um anjo, um super-homem, como se preferir, e volta à Terra preparado para o próximo salto à frente no destino evolutivo   do homem.”
Clarke defende uma leitura mais direta do filme, afirmando que se trata de duas buscas importantes na história da humanidade: o desenvolvimento de máquinas inteligentes e o contato com alienígenas.
O personagem central e mais complexo da trama é Hal 9000, um supercomputador responsável pela segurança e comando da nave espacial. Em certo momento ele começa a desenvolver emoções humanas. Vaidade, orgulho e ira levam o cérebro eletrônico à loucura e fazem com que ele mate a tripulação da Discovery. Em umas das cenas mais emblemáticas do filme, Hal tranca o comandante e único sobrevivente para fora da espaçonave. 
"Open the pod by doors, HAL!",ordena o homem, “I am sorry Dave, but i can not let you do that” responde,  impassível e com uma voz que chega a ser terna.     
A criança-estrela que fecha o filme bailando no espaço representa a crença do diretor na evolução da humanidade, no surgimento do super-homem. Uma crítica à supervalorização da tecnologia em detrimento ao desenvolvimento da mentalidade humana.
Anos depois em 1984 este discurso aparece novamente em Solaris, filme do diretor russo Andrei Tarkoviski.  Também baseado em uma obra literária, do escritor polonês Stanislaw Lem, ele questionava os motivos que fazia a extinta União Soviética dispensar esforços econômicos acima de suas potencialidades, na Guerra Fria e na corrida espacial e deixasse o fator humano em segundo plano.
Embora alguns críticos até hoje afirmem que Solares é uma resposta a 2001, o primeiro foi feito com recursos escassos e uma narrativa filosófica forte, o segundo entrou para a história por suas inovações tecnológicas, tanto um como outro acendem a mesma discussão humanística.  Defendo a ideia que 2001 Uma Odisseia no Espaço seja visto ao menos uma vez por ano, a leitura nunca será a mesma. Já Solaris é para os mais fortes, quase três horas de pura semiótica, porém incrivelmente belo!



terça-feira, 10 de abril de 2012

(...) Primeiramente, é claro serem todas as paixões desregradas produzidas pela loucura. A única diferença entre o louco e o sábio é que o primeiro obedece às suas paixões e o segundo à sua razão. Eis porque os estoicos interdizem ao sábio as paixões, por eles consideradas doentes. No entanto, são estas paixões que servem de guia aos que voam com ardor na carreira da sabedoria: são elas que os inspiram a cumprir os deveres da virtude, e os inspiram a ideia e o desejo de fazer o bem. Inútil é que Sêneca, esse estoico exagerado, diga ser o sábio inteiramente despido de paixões. Um sábio assim já não seria homem, seria uma espécie de deus, ou antes, um ser imaginário que jamais existiu e jamais existirá; ou enfim, mais claramente, um ídolo boçal, privado de qualquer sentimento humano, e tão insensível que o mais duro dos mármores. Deixemos que os estoicos se alegrem como queiram com o se sábio imaginário, que amem à vontade, visto que não terão rivais, mas que vão com ele viver na república de Platão, no reino das idéias, ou nos jardins de Tântalo. (...)

Erasmo de Roterdã ( O Elogio da Loucura)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O novo Cristo declarou: nasci sem pele. Um dia sonhei que estava nu num jardim e que cuidadosa e completamente me tiravam a pele como a um fruto. Não ficou nem um resto de pele no meu corpo. Foi toda mas toda retirada com cuidado e só depois me disseram para andar, viver e correr. A princípio movimentei-me devagar, o jardim era tremendamente macio e eu sentia de uma forma precisa o jardim- doçura, não na superfície do corpo, mas atravessando- me o ar doce e os perfumes, como agulhas penetrando todos os meus poros em sangue. Todos os poros estavam abertos e respiravam calor, doçura e cheiros. O corpo totalmente invadido, penetrado, reagindo, a mais pequena célula e poros vivos respirando e tremendo com prazer. Gritei de dor. Corri. E ao correr o vento chicoteava-me e as vozes das pessoas eram chicotes dirigidos a mim. Ser tocado! Acaso sabem vocês o que é ser tocado por um ser humano?

Anáis Nin

terça-feira, 22 de março de 2011

Foto: Sandra Ribeiro


Sempre tive uma paixão confessa pela Bahia. Meu primeiro contato com esta terra maravilhosa foi ainda criança, através das gravuras de Jean-Baptiste Debret. Nelas baianas carregando tabuleiros e escravos com toda sorte de carga nos lombos caminham pelo pelourinho.
Em março de 2010 fui para Salvador, já conhecia o sul do estado, mas nunca tinha ido para a capital. A primeira visão que temos da cidade antes de aterrissar no aeroporto Luiz Eduardo Magalhães é de uma periferia feia, de casas de alvenaria amontoadas e sem reboco. La quase tudo leva o nome do clã, praças, avenidas, hospitais e a plebe se divide entre os que odeiam e os que idolatram painho.
Um longo caminho separa o aeroporto da orla da cidade. O trânsito é caótico, o calor escaldante e não da para imaginar que uma bela paisagem vai surgir após uma esquina. Mas é isto mesmo que acontece, de repente pode-se ver o mar cantado por Caymmi. Após percorrer as belas praias, passo pelo Farol da Barra, a Praça Castro Alves, o elevador Lacerda e enfim, o Pelourinho, meu destino final.
Mas antes, uma parada na sorveteria do Lacerda para saborear um sorvete de cupuaçu e admirar a Baia de Todos os Santos. Uma visão simplesmente inesquecível, não só pelo sol, mar e céu, mas por uma perfeita combinação destes elementos com a arquitetura que remete a séculos atrás.
Caminhar pelas ruas de Salvador é como fazer uma viagem no tempo. Devidamente alojada saio para explorar os arredores do Pelô. Vejo por todos os lados moleques ofertando fitinhas coloridas, baianas em trajes típicos, estrangeiros esbanjando vermelhidão e muitos gatos de todos os tamanhos e cores, se fartando com os camarões que caem dos acarajés.
Gosto de passar horas no ossuário da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, olhar as inscrições centenárias das gavetas e imaginar o cotidiano daquelas pessoas. As sinhás passeando de sombrinhas abertas, metidas em rendas, frufrus e laçarotes e os mocinhos em mangas de camisas. Ruborizados, trocando olhares furtivos e com sol escaldante dizendo que aquela terra não pertencia a eles. Os escravos subindo e descendo as ladeiras, confortados com o clima, embora também estrangeiros. Braços fortes, lábios grossos e secos, a pele brilhante e os grilhões ferindo, marcando a carne e a sina desgraçada.
Volto para nosso século vazio de magia e eu mesma repleta de idiossincrasias. Desço o Pelô com os pés doloridos pelas pedras, pois estão acostumados a pisar asfalto e na maioria das vezes, nuvens. Lá tudo é sentido, sempre tem tambores tocando em algum lugar e o cheiro de dendê não sai do ar. Mas o melhor desta terra é o soteropolitano, estes têm algo que canta, requebra e convida. As meninas são frajolas da baixa do Sapateiro ao Bonfim e os homens tocam com o olhar. “Compre um colar de Iansã que te dou outro de Oxalá minha linda”, tenta me convencer um rapaz de sorriso maroto. Não comprei, Deus me livre da ira de Oxalá ao se ver reduzido a um brinde. Quero a benção de todos os orixás para voltar mil vezes a Salvador.