quinta-feira, 3 de maio de 2012
" Open the pod by doors, HAL!"
terça-feira, 10 de abril de 2012
(...) Primeiramente, é claro serem todas as paixões desregradas produzidas pela loucura. A única diferença entre o louco e o sábio é que o primeiro obedece às suas paixões e o segundo à sua razão. Eis porque os estoicos interdizem ao sábio as paixões, por eles consideradas doentes. No entanto, são estas paixões que servem de guia aos que voam com ardor na carreira da sabedoria: são elas que os inspiram a cumprir os deveres da virtude, e os inspiram a ideia e o desejo de fazer o bem. Inútil é que Sêneca, esse estoico exagerado, diga ser o sábio inteiramente despido de paixões. Um sábio assim já não seria homem, seria uma espécie de deus, ou antes, um ser imaginário que jamais existiu e jamais existirá; ou enfim, mais claramente, um ídolo boçal, privado de qualquer sentimento humano, e tão insensível que o mais duro dos mármores. Deixemos que os estoicos se alegrem como queiram com o se sábio imaginário, que amem à vontade, visto que não terão rivais, mas que vão com ele viver na república de Platão, no reino das idéias, ou nos jardins de Tântalo. (...)
Erasmo de Roterdã ( O Elogio da Loucura)
quarta-feira, 4 de abril de 2012
O novo Cristo declarou: nasci sem pele. Um dia sonhei que estava nu num jardim e que cuidadosa e completamente me tiravam a pele como a um fruto. Não ficou nem um resto de pele no meu corpo. Foi toda mas toda retirada com cuidado e só depois me disseram para andar, viver e correr. A princípio movimentei-me devagar, o jardim era tremendamente macio e eu sentia de uma forma precisa o jardim- doçura, não na superfície do corpo, mas atravessando- me o ar doce e os perfumes, como agulhas penetrando todos os meus poros em sangue. Todos os poros estavam abertos e respiravam calor, doçura e cheiros. O corpo totalmente invadido, penetrado, reagindo, a mais pequena célula e poros vivos respirando e tremendo com prazer. Gritei de dor. Corri. E ao correr o vento chicoteava-me e as vozes das pessoas eram chicotes dirigidos a mim. Ser tocado! Acaso sabem vocês o que é ser tocado por um ser humano?
Anáis Nin
terça-feira, 22 de março de 2011
Em março de 2010 fui para Salvador, já conhecia o sul do estado, mas nunca tinha ido para a capital. A primeira visão que temos da cidade antes de aterrissar no aeroporto Luiz Eduardo Magalhães é de uma periferia feia, de casas de alvenaria amontoadas e sem reboco. La quase tudo leva o nome do clã, praças, avenidas, hospitais e a plebe se divide entre os que odeiam e os que idolatram painho.
Um longo caminho separa o aeroporto da orla da cidade. O trânsito é caótico, o calor escaldante e não da para imaginar que uma bela paisagem vai surgir após uma esquina. Mas é isto mesmo que acontece, de repente pode-se ver o mar cantado por Caymmi. Após percorrer as belas praias, passo pelo Farol da Barra, a Praça Castro Alves, o elevador Lacerda e enfim, o Pelourinho, meu destino final.
Mas antes, uma parada na sorveteria do Lacerda para saborear um sorvete de cupuaçu e admirar a Baia de Todos os Santos. Uma visão simplesmente inesquecível, não só pelo sol, mar e céu, mas por uma perfeita combinação destes elementos com a arquitetura que remete a séculos atrás.
Caminhar pelas ruas de Salvador é como fazer uma viagem no tempo. Devidamente alojada saio para explorar os arredores do Pelô. Vejo por todos os lados moleques ofertando fitinhas coloridas, baianas em trajes típicos, estrangeiros esbanjando vermelhidão e muitos gatos de todos os tamanhos e cores, se fartando com os camarões que caem dos acarajés.
Gosto de passar horas no ossuário da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, olhar as inscrições centenárias das gavetas e imaginar o cotidiano daquelas pessoas. As sinhás passeando de sombrinhas abertas, metidas em rendas, frufrus e laçarotes e os mocinhos em mangas de camisas. Ruborizados, trocando olhares furtivos e com sol escaldante dizendo que aquela terra não pertencia a eles. Os escravos subindo e descendo as ladeiras, confortados com o clima, embora também estrangeiros. Braços fortes, lábios grossos e secos, a pele brilhante e os grilhões ferindo, marcando a carne e a sina desgraçada.
Volto para nosso século vazio de magia e eu mesma repleta de idiossincrasias. Desço o Pelô com os pés doloridos pelas pedras, pois estão acostumados a pisar asfalto e na maioria das vezes, nuvens. Lá tudo é sentido, sempre tem tambores tocando em algum lugar e o cheiro de dendê não sai do ar. Mas o melhor desta terra é o soteropolitano, estes têm algo que canta, requebra e convida. As meninas são frajolas da baixa do Sapateiro ao Bonfim e os homens tocam com o olhar. “Compre um colar de Iansã que te dou outro de Oxalá minha linda”, tenta me convencer um rapaz de sorriso maroto. Não comprei, Deus me livre da ira de Oxalá ao se ver reduzido a um brinde. Quero a benção de todos os orixás para voltar mil vezes a Salvador.




