
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
P. Neruda
"O homem gostaria de ser peixe ou pássaro,
a serpente gostaria de ter asas e o cão é um
leão confuso...
Mas o gato quer ser somente gato, e todo
gato é um puro gato desde o bigode ao rabo!"
a serpente gostaria de ter asas e o cão é um
leão confuso...
Mas o gato quer ser somente gato, e todo
gato é um puro gato desde o bigode ao rabo!"
terça-feira, 6 de julho de 2010
Posso ajudar com mais alguma informação?
Que atire a primeira pedra quem nunca teve vontade de apedrejar os atendentes de SACs. Este tipo peculiar de ser humano, que não tem rosto, não demonstra personalidade e geralmente termina todas as frases com “senhor” ou ”senhora”. Este produto da mecanização do relacionamento consumidor/empresa, este entusiasta do gerúndio, enfim...
Não sou uma consumidora voraz de produtos da internet, mas algum tempo atrás recebi uma promoção da Época no meu e-mail que me chamou a atenção. Como quase não sobra tempo do meu dia para ler jornais, já tinha resolvido assinar uma revista semanal. Uma compilação do que aconteceu no mundo, passando por baixo da minha porta nas manhãs de sábado.
Já fui assinante de todas elas e só posso dizer que: A Veja qualifica demais a notícia e tem sempre um amigo chavista para dizer, “Você lê esta porcaria?”. Isto é já não é mais a mesma, com perdão do trocadilho infame, já foi. E a Carta Capital é muito esquerda intelectual para o meu gosto. Sobrou-me a Época, que eu particularmente considero o sorvete de creme ou suflê de chuchu das revistas semanais. Mas esta da promoção vinha com um diferencial, uma caixa de DVD da FIFA com a história das copas e ai meus olhos brilharam. Deixei-me iludir pela venda casada, que apesar disto vinha com a palavra BRINDE em letras garrafais. Fechei o negócio, coloquei no débito automático e esperei, recebi as primeiras revistas e nada dos DVDs. Foi ai que recorri ao SAC da Editora Globo. Entrei no chat e segue o diálogo sem pé nem cabeça:
Luiz Carlos: Olá Sandra Ribeiro, seja bem-vindo (a) ao nosso atendimento on line! Em que posso ajudar?
Sandra: Fiz uma assinatura de Época com a promoção dos DVDs da copa, já paguei a primeira e a segunda ta caindo, até agora não recebi os DVDs.
Luiz Carlos: A fim de que haja continuidade no atendimento, esta conversa será transferida para outro operador.
Márcia Regina: (Entra na conversa).
Luiz Carlos: (Saiu da conversa).
Márcia Regina: Por motivo de segurança e para que eu possa prosseguir com o atendimento, por favor, preencha o formulário que será enviado
Preencho o tal formulário, já com uma ruga sobre a testa.
Márcia Regina: Obrigada.
Passa-se um tempo. A ruga na minha testa agora tem companhia de outras.
Sandra: Olaaaaa
Márcia Regina: Aguarde um momento, por favor.
Sandra: OK
Márcia Regina: Obrigada. Em que posso ajudá-la?
Repito a pergunta, já um tanto irritada.
Márcia Regina: Por favor, de uma referência de sua residência.
Sandra: Atrás do Shopping Sorocaba.
Márcia Regina: O Brinde será entregue em até 60 dias após a confirmação do 2º pagamento da assinatura. Posso ajudar com mais alguma informação?
Sandra (consternada): Nossa! Não tinha esta informação no ato da assinatura. Mas tudo bem, qual e a forma de entrega?
Márcia Regina: Correios.
Sandra: Ok e se não tiver ninguém para receber?
Márcia Regina: O brinde volta para os correios.
Sandra: Mas fica disponível para retirada?
Márcia Regina: Ele é novamente destinado para a sua residência através dos correios. Posso ajudar com mais alguma informação?
Sandra: (tentando manter a classe) Ok. Eu não fico em casa, posso pedir para entregar em outro endereço?
Márcia Regina: Se efetuar alteração de endereço para entrega do brinde, automaticamente as revistas também serão entregues no novo endereço. A senhora gostaria de efetuar a mudança?
Sandra (virtualmente irritada): Não quero mudar o endereço de entrega das revistas, só quero receber os DVDs em outro endereço.
Márcia Regina: Se efetuar alteração de endereço para entrega do brinde, automaticamente as revistas também serão entregues no novo endereço. A senhora gostaria de efetuar a mudança?
Sandra: Não. Quero saber qual o procedimento se eu não estiver em casa no momento da nova entrega.
Márcia Regina: Aguarde o prazo informado, caso o brinde seja devolvido seguirá diretamente para a Editora Globo.
Sandra: E então?
Márcia Regina: É necessário que você aguarde o prazo informado. Se o brinde voltar ele será entregue pelos correios.
Sandra: (em graus estratosféricos de irritação): E se eu novamente não estiver em casa começa tudo de novo, é isto?
Márcia Regina: Não há ninguém que possa receber por você?
Sandra: Não
Márcia Regina: Aguarde um momento, por favor.
Ufa, agora ela vai voltar com uma solução! (Depois de alguns minutos.)
Márcia Regina: Os Correios tentará a entrega em sua residência e caso não esteja ou não tenha ninguém no local o brinde será devolvido para a Editora Globo.
Sandra (risos nervosos): Ok, então talvez nem receba o produto?
Márcia Regina: Caso prefira, você pode alterar o endereço (tanto de entrega das revistas como do brinde) para outro local onde tenha alguém para receber o brinde.
Sandra (teclando histericamente): Já disse que não quero alterar nada, se eu não receber o produto vou cancelar a assinatura.
Márcia Regina: Posso ajudar com mais alguma informação?
Sandra: Como se você nem resolveu a primeira ainda, se acaso isto demorar vou cancelar a assinatura.
Márcia Regina: O prazo de entrega do brinde é de até 60 dias após a confirmação do pagamento da segunda parcela.
Sandra (desistindo): To sabendo, você já colou esta informação. Somente quero deixar minha indignação, no ato da assinatura estas informações têm que constar, por favor, repasse para seu superior.
Márcia Regina: Obrigada senhora. Posso ajudar com mais alguma informação?
Fecho a janela do chat, transtornada não sei se rio ou soco o teclado. Após este dia resolvi relaxar, duas semanas depois ao voltar da faculdade encontro a revista e a caixa de DVDs na minha porta. Ainda bem que moro num prédio de gente honesta ou que não aprecia a revista Época.
Não sou uma consumidora voraz de produtos da internet, mas algum tempo atrás recebi uma promoção da Época no meu e-mail que me chamou a atenção. Como quase não sobra tempo do meu dia para ler jornais, já tinha resolvido assinar uma revista semanal. Uma compilação do que aconteceu no mundo, passando por baixo da minha porta nas manhãs de sábado.
Já fui assinante de todas elas e só posso dizer que: A Veja qualifica demais a notícia e tem sempre um amigo chavista para dizer, “Você lê esta porcaria?”. Isto é já não é mais a mesma, com perdão do trocadilho infame, já foi. E a Carta Capital é muito esquerda intelectual para o meu gosto. Sobrou-me a Época, que eu particularmente considero o sorvete de creme ou suflê de chuchu das revistas semanais. Mas esta da promoção vinha com um diferencial, uma caixa de DVD da FIFA com a história das copas e ai meus olhos brilharam. Deixei-me iludir pela venda casada, que apesar disto vinha com a palavra BRINDE em letras garrafais. Fechei o negócio, coloquei no débito automático e esperei, recebi as primeiras revistas e nada dos DVDs. Foi ai que recorri ao SAC da Editora Globo. Entrei no chat e segue o diálogo sem pé nem cabeça:
Luiz Carlos: Olá Sandra Ribeiro, seja bem-vindo (a) ao nosso atendimento on line! Em que posso ajudar?
Sandra: Fiz uma assinatura de Época com a promoção dos DVDs da copa, já paguei a primeira e a segunda ta caindo, até agora não recebi os DVDs.
Luiz Carlos: A fim de que haja continuidade no atendimento, esta conversa será transferida para outro operador.
Márcia Regina: (Entra na conversa).
Luiz Carlos: (Saiu da conversa).
Márcia Regina: Por motivo de segurança e para que eu possa prosseguir com o atendimento, por favor, preencha o formulário que será enviado
Preencho o tal formulário, já com uma ruga sobre a testa.
Márcia Regina: Obrigada.
Passa-se um tempo. A ruga na minha testa agora tem companhia de outras.
Sandra: Olaaaaa
Márcia Regina: Aguarde um momento, por favor.
Sandra: OK
Márcia Regina: Obrigada. Em que posso ajudá-la?
Repito a pergunta, já um tanto irritada.
Márcia Regina: Por favor, de uma referência de sua residência.
Sandra: Atrás do Shopping Sorocaba.
Márcia Regina: O Brinde será entregue em até 60 dias após a confirmação do 2º pagamento da assinatura. Posso ajudar com mais alguma informação?
Sandra (consternada): Nossa! Não tinha esta informação no ato da assinatura. Mas tudo bem, qual e a forma de entrega?
Márcia Regina: Correios.
Sandra: Ok e se não tiver ninguém para receber?
Márcia Regina: O brinde volta para os correios.
Sandra: Mas fica disponível para retirada?
Márcia Regina: Ele é novamente destinado para a sua residência através dos correios. Posso ajudar com mais alguma informação?
Sandra: (tentando manter a classe) Ok. Eu não fico em casa, posso pedir para entregar em outro endereço?
Márcia Regina: Se efetuar alteração de endereço para entrega do brinde, automaticamente as revistas também serão entregues no novo endereço. A senhora gostaria de efetuar a mudança?
Sandra (virtualmente irritada): Não quero mudar o endereço de entrega das revistas, só quero receber os DVDs em outro endereço.
Márcia Regina: Se efetuar alteração de endereço para entrega do brinde, automaticamente as revistas também serão entregues no novo endereço. A senhora gostaria de efetuar a mudança?
Sandra: Não. Quero saber qual o procedimento se eu não estiver em casa no momento da nova entrega.
Márcia Regina: Aguarde o prazo informado, caso o brinde seja devolvido seguirá diretamente para a Editora Globo.
Sandra: E então?
Márcia Regina: É necessário que você aguarde o prazo informado. Se o brinde voltar ele será entregue pelos correios.
Sandra: (em graus estratosféricos de irritação): E se eu novamente não estiver em casa começa tudo de novo, é isto?
Márcia Regina: Não há ninguém que possa receber por você?
Sandra: Não
Márcia Regina: Aguarde um momento, por favor.
Ufa, agora ela vai voltar com uma solução! (Depois de alguns minutos.)
Márcia Regina: Os Correios tentará a entrega em sua residência e caso não esteja ou não tenha ninguém no local o brinde será devolvido para a Editora Globo.
Sandra (risos nervosos): Ok, então talvez nem receba o produto?
Márcia Regina: Caso prefira, você pode alterar o endereço (tanto de entrega das revistas como do brinde) para outro local onde tenha alguém para receber o brinde.
Sandra (teclando histericamente): Já disse que não quero alterar nada, se eu não receber o produto vou cancelar a assinatura.
Márcia Regina: Posso ajudar com mais alguma informação?
Sandra: Como se você nem resolveu a primeira ainda, se acaso isto demorar vou cancelar a assinatura.
Márcia Regina: O prazo de entrega do brinde é de até 60 dias após a confirmação do pagamento da segunda parcela.
Sandra (desistindo): To sabendo, você já colou esta informação. Somente quero deixar minha indignação, no ato da assinatura estas informações têm que constar, por favor, repasse para seu superior.
Márcia Regina: Obrigada senhora. Posso ajudar com mais alguma informação?
Fecho a janela do chat, transtornada não sei se rio ou soco o teclado. Após este dia resolvi relaxar, duas semanas depois ao voltar da faculdade encontro a revista e a caixa de DVDs na minha porta. Ainda bem que moro num prédio de gente honesta ou que não aprecia a revista Época.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Prosa Patética (VIVIANE MOSÉ)
Nunca fui de ter inveja, mas de uns tempos pra cá tenho tido.
As mãos dadas dos amantes tem me tirado o sono.
Ontem, desejei com toda força ser a moça do supermercado.
Aquela que fala do namorado com tanta ternura.
Mesmo das brigas ando tendo inveja.
Meu vizinho gritando com a mulher, na casa cheia de crianças,
sempre querendo, querendo.
Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.
Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.
Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região.
No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança
do hálito quente do outro. A voz, o viço.
Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,
expulsar de mim essa Nossa senhora ciumenta.
Madona sedenta de versos. Mas tive medo.
Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito.
Ausência de espelhos que dissolve a falta, a fraqueza, a preguiça.
E me faz vento, pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.
Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,
onde tudo é grave e único. E me mantive quieta e muda.
E mais do que nunca tive inveja.
Invejei quem tem vida reta, quem não é poeta
nem pensa essas coisas. Quem simplesmente ama e é amado.
E lê jornal domingo. Come pudim de leite e doce de abóbora.
A mulher que engravida porque gosta de criança.
Pra mim tudo encerra a gravidade prolixa das palavras: madrugada, mãe, ônibus, olhos, desabrocham em camadas de sentido,
e ressoam como gongos ou sinos de igreja em meus ouvidos.
Escorro entre palavras, como quem navega um barco sem remo.
Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio.
Clarice diz, que sua função é cuidar do mundo.
E eu, que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada,
não tenho bons modos nem berço.
Que escrevo num tempo onde tudo já foi falado, cantado, escrito.
O que o silêncio pode me dizer que já não tenha sido dito?
Eu, cuja única função é lavar palavra suja,
nesse fim de século sem certeza?
Eu quero que a solidão me esqueça.
As mãos dadas dos amantes tem me tirado o sono.
Ontem, desejei com toda força ser a moça do supermercado.
Aquela que fala do namorado com tanta ternura.
Mesmo das brigas ando tendo inveja.
Meu vizinho gritando com a mulher, na casa cheia de crianças,
sempre querendo, querendo.
Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.
Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.
Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região.
No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança
do hálito quente do outro. A voz, o viço.
Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,
expulsar de mim essa Nossa senhora ciumenta.
Madona sedenta de versos. Mas tive medo.
Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito.
Ausência de espelhos que dissolve a falta, a fraqueza, a preguiça.
E me faz vento, pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.
Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,
onde tudo é grave e único. E me mantive quieta e muda.
E mais do que nunca tive inveja.
Invejei quem tem vida reta, quem não é poeta
nem pensa essas coisas. Quem simplesmente ama e é amado.
E lê jornal domingo. Come pudim de leite e doce de abóbora.
A mulher que engravida porque gosta de criança.
Pra mim tudo encerra a gravidade prolixa das palavras: madrugada, mãe, ônibus, olhos, desabrocham em camadas de sentido,
e ressoam como gongos ou sinos de igreja em meus ouvidos.
Escorro entre palavras, como quem navega um barco sem remo.
Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio.
Clarice diz, que sua função é cuidar do mundo.
E eu, que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada,
não tenho bons modos nem berço.
Que escrevo num tempo onde tudo já foi falado, cantado, escrito.
O que o silêncio pode me dizer que já não tenha sido dito?
Eu, cuja única função é lavar palavra suja,
nesse fim de século sem certeza?
Eu quero que a solidão me esqueça.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Sobre tsunamis...
De todos os fenômenos naturais o que mais me amedronta e fascina são os tsunamis. Desde criança tenho sonhos com eles, sonho que estou vivendo a minha vida e de repente, do nada uma onda inimaginavelmente grande e de um verde nunca visto, nem nas casas do Wannel Ville, passa arrastando tudo, inclusive eu! Já sonhei com tsunamis em inúmeras situações ao longo desta vida, em rios, surgindo de bocas de lobo, o último vinha do mar da Bahia e arrastava com ele barcos, baleias, submarinos e até um surfista bem apetecível.
Um dia busquei no Google o significado de mais de trinta anos de sonhos, encontrei num desses sites místicos que, sonhos com grandes ondas premonizam grandes dificuldades. Esoterismo nunca foi o meu forte, e puxando pela memória cheguei à conclusão que, não importa os tsunamis, tempestades ou qualquer outro cataclismo, as dificuldades vêm e vão, estão mais para os movimentos das marés. Além do mais, meus sonhos nunca foram pesadelos, ninguém morre neles e depois que a onda passa tudo fica limpo, até o ar e uma nova ordem é instaurada. Então cheguei à conclusão que não preciso ler sonhos.com, Freud ou Lacan para interpretá-los, meus sonhos não são cassândricos e sim niilistas. No fundo desejo que esta onda passe e varra: A saudade dos que demoram a voltar e dos que jamais voltarão, a lembrança dos amores mal vividos e o desejo do não correspondido, a razão dos que odeio e a hipocrisia dos que amo, o medo do futuro incerto e a certeza de que a coisa toda descambou para a banalidade, a inveja do casal de idosos de mãos dadas na sala de espera da clínica, a aceitação da miséria por pura inércia e a convicção de que homem-humano não é mais pleonasmo! O que mais me incomoda é que a onda passa, eu acordo e o ar continua denso e a desordem continua a imperar, e que eu não posso criar um tsunami na minha pia, ou no meu vaso sanitário por exemplo. Ou será que posso?
Sem alternativas, devoro um pote de sorvete e ouço Madeleine Peyroux, tomo um relaxante muscular e vou dormir, esperar pela próxima onda!
Um dia busquei no Google o significado de mais de trinta anos de sonhos, encontrei num desses sites místicos que, sonhos com grandes ondas premonizam grandes dificuldades. Esoterismo nunca foi o meu forte, e puxando pela memória cheguei à conclusão que, não importa os tsunamis, tempestades ou qualquer outro cataclismo, as dificuldades vêm e vão, estão mais para os movimentos das marés. Além do mais, meus sonhos nunca foram pesadelos, ninguém morre neles e depois que a onda passa tudo fica limpo, até o ar e uma nova ordem é instaurada. Então cheguei à conclusão que não preciso ler sonhos.com, Freud ou Lacan para interpretá-los, meus sonhos não são cassândricos e sim niilistas. No fundo desejo que esta onda passe e varra: A saudade dos que demoram a voltar e dos que jamais voltarão, a lembrança dos amores mal vividos e o desejo do não correspondido, a razão dos que odeio e a hipocrisia dos que amo, o medo do futuro incerto e a certeza de que a coisa toda descambou para a banalidade, a inveja do casal de idosos de mãos dadas na sala de espera da clínica, a aceitação da miséria por pura inércia e a convicção de que homem-humano não é mais pleonasmo! O que mais me incomoda é que a onda passa, eu acordo e o ar continua denso e a desordem continua a imperar, e que eu não posso criar um tsunami na minha pia, ou no meu vaso sanitário por exemplo. Ou será que posso?
Sem alternativas, devoro um pote de sorvete e ouço Madeleine Peyroux, tomo um relaxante muscular e vou dormir, esperar pela próxima onda!
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